
O doce olhar amargo.
Naquela manhã fria e chuvosa, acordei com alguns minutos de atraso.
Havia me deitado completamente exausta na noite anterior.
Saí às pressas em direção ao trabalho.
Mal havia dado tempo de um pequeno café matinal.
Já me encontrava dentro do carro, quando me lembrei da fruta
esquecida na cozinha. Voltei ao interior de minha residência e
apanhei a pequena sacola. Coloquei-a no banco do carona e segui em frente.
Parada diante do sinal vermelho, minha impaciência aumentava.
Tentava a todo custo, aquecer minhas mãos geladas, quando ouvi
leves batidas no vidro do carro. Atrasada, minha irritação só aumentou.
Novamente, ouço as batidas, agora mais fortes. Resolvo olhar prá fora, disposta a bronquear. Um menino, que na ponta dos pés, tentava alcançar o vidro da janela. Pensei ter no máximo quatro anos de idade. Sujo, semi nu e faminto. Seu rosto tinha dois sulcos profundos denunciando o jejum forçado de vários dias. Seus olhos ... penetraram minha alma. Era um pedido de socorro silencioso. Esqueci a pressa, o atraso, o trabalho. Abri a porta do carona e ele imediatamente entrou. Não conseguia dar partida no carro. O cheiro era insuportável. Aquela criança tinha muitas necessidades, mas a primeira delas era um bom banho. A fruta estava a lhe incomodar ... o traseiro e o estômago. O que é isso tia? Ora, que pergunta! Isto é uma maçã. Nunca viu? Ver, eu já vi, mas nunca comi uma. E sem a menor cerimônia abocanhou uma boa parte da fruta. Que delícia! Este foi o melhor desjejum de minha vida.
14 de março de 2009
